Ela era a princesa enviada em casamento por ordem do destino, em um momento de crise. Ele, um assassino mortal que havia se retirado das sombras do mundo. Um assassinato uniu para sempre os caminhos de ambos, entrelaçando suas vidas em um fio invisível do destino.
Sempre que o sol poente se inclina no horizonte, sento-me à janela e contemplo ao longe as nuvens errantes tingidas pelo crepúsculo. Observo-as como brasas incandescentes, pouco a pouco rubras e ardentes; depois, vejo-as esfriando suavemente ao sabor do vento vespertino, tornando-se opacas e dissipando-se.
Nessa contemplação serena à distância, as memórias desfilam como quadros que se desenrolam sob a luz do entardecer. Primeiro vagas, depois nítidas, e então de novo se esvaem em indefinição. É como um ontem límpido, onde só restam os enredos de amor e ódio a apertar o coração, mas ninguém mais pode retornar àquele tempo distante.
Quando o último fulgor carmesim é engolido pela terra e as primeiras estrelas se acendem no céu, as pessoas que repousam preguiçosamente adormecidas nas cadeiras veem em sonhos aquela lua cheia que, silente, sobe a firmar-se entre as miríades de estrelas.
Naquela noite, a lua estava tão perfeita que, por muitos anos, jamais voltei a testemunhar plenilúnio tão belo.
Sua luz abundante e terna banhava suavemente o mundo. No chão, as luzes brilhavam como se fosse dia, as multidões se entrelaçavam pelas ruas, e em cada via soavam os pregões e aclamações incessantes. Era o Festival das Lanternas, a noite mais animada do ano na capital de Luoyang, durante a grande dinastia Zhou.
Lembro-me de que, então, eu tinha dezesseis anos – idade em que se deseja participar de toda festividade. Ainda que a neve e o gelo de janeiro não tivessem derretido e o vento do norte soprasse forte, nada era capaz de arrefecer meu entusiasmo p